Além
um relato de campo um tanto quanto precoce
Você já ouviu falar de afterologia? A vasta gama de estudos daquilo que vem depois. Por se tratar de um campo muito específico dentro da metafísica, o meu professor de introdução à pesquisa científica não me aconselhou. Parece que não levou tanto a sério.
Quis prová-lo errado. E por dar valor à pesquisa de campo raiz, fiz o que todo universitário de respeito faria em nome da ciência: dei meu nome! Dediquei-me à afterologia como ninguém antes de mim. Depois da calourada, procurei um after party de respeito! Viva o avanço técnico-científico! Chupa, Dr. Carlos Barata!
Festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal, não aguento mais etc. Não poderia ser diferente. Já são seis da manhã e as cores da aurora já querem despontar no horizonte. Quanto mais alongado o after que se caça, maior é a sensação de terem sido abertos os bueiros do submundo. Aí, meu consagrado, começamos a adentrar no esquisito universo da afterologia.
– Moço, onde você conseguiu comprar esse lanche? – me perguntou o meu mais novo Estudo de Caso.
É o terceiro estudo de caso da noite. É importante escolher com propriedade quem vai ser analisado, para termos um espaço amostral adequado. O primeiro era uma moça nova, nova até demais. Não conseguia parar em pé, me pergunto como conseguiu chegar até aqui. Estava circulando atrás de um rapaz que usou óculos escuro a noite toda, além de um forçoso bigode fino.
Cada estudo de caso tem que orbitar seu próprio microuniverso. O segundo caso, eu suspeito que seja um policial federal disfarçado. O que tem fazendo este senhor de cinquenta e tantos anos em uma festa universitária usando um rabo contorcido de Pikachu? Suspeito que esteja que nem eu, à paisana.
O terceiro é essa moça bonita dos cabelos cacheados. Com uma intimidada que não tínhamos, ela pegou uma das minhas batatinhas fritas. Quando a sua mão tocou na minha para invadir o meu espaço e roubar da minha comida, os meus olhos encararam os olhos dela. Eram olhos castanhos cor de mel.
– Deixa de ser folgada, sua maluca – eu teria retrucado. Mas não posso emitir juízo de valor perante um Estudo de Caso. Será que ela notou que já faz um tempo que eu a tenho encarado?
Ao invés de dizer qualquer palavra – de esboçar qualquer reação –, adentro em seu olhar. O castanho era claro com tons quase verdes como os quartzos de Pirenópolis. Segui aquele clarão como quem penetra uma cachoeira. Em poucos segundos, estávamos a sós e longe da música daquele DJ que não sabia fazer a transição entre as músicas: caminhávamos em uma trilha no cerrado.
Como eu vim parar aqui? Da festa para o pós, logo em seguida alugamos um carro na Localiza, eu e uma estranha para adentrar na natureza. Depois dos ciclos de intensidade, insanidade, insalubridade, era esse o segredo do after o tempo todo? Se reencontrar de volta à vegetação nativa? Um retorno à árvore da vida?
Compramos uma casinha e agora Elisa já está esperando o nosso segundo filho. Desacelerar. Este é o verdadeiro after, um dia após o outro. Nos movemos lentamente entre as estações, entre os ciclos das chuvas e das secas. Vivemos do que a natureza nos dá, sendo gratos ao modelo da nossa agrofloresta.
Mas os cabelos cacheados de Elisa já estão ficando brancos e, com eles, uma doença degenerativa congênita rara, muito rara. Só existe um tratamento disponível em Toronto, a nossa filha mais velha quer levá-la para lá. Mas, agricultores que somos, não temos condições. Ai se eu tivesse terminado o meu curso na universidade, será que não seria essa a minha área de especialização? A eselogia seria o estudo dos vários e se da vida.
Termino de encarar aqueles olhos castanhos, volto a escutar a mixagem do bregafunk em descompasso tanto com os beats quanto com o vocal de um cantor sertanejo greco-goiano. A moça pegou uma batatinha e eu, sem dar resposta, a vejo se virando e dando as costas.
Procuro em volta, cadê os meus outros objetos de estudo? Todos já foram embora, acendem-se as luzes da festa. Ninguém aguenta mais, nem o DJ. Uma turma de noias cantarolam em uníssono: eu não vou embora. De fato, abriram-se os bueiros do submundo do after, todos caçando para onde ir depois. Quanto a mim, droga, eu tinha me esquecido que hoje seria a prova de introdução à pesquisa. Eu que lute ao ir virado para fazer o exame do Dr. Barata!



