Áurea
tipo a razão, só que em devaneio
Aldous Huxley para mim é o brabo. Papo reto, desde que li As Portas da Percepção, não consigo tirar isso da cabeça. Sabe, é tudo uma questão de metodologia. Ele era um homem sábio, estilo Salomão.
Sim, sim, o rei Salomão mesmo. Aquele tipo por o homem mais sábio de seu tempo. Esse era outro que entendia das metodologias. No fundo, acho que tudo na vida acaba sendo uma questão de metodologia.
Por que você gosta do que gosta? A gente acaba entrando no campo do subjetivismo, né? É o campo da estética. Porque eu gosto assim e assado e ponto final.
Mas se a gente cavar um pouquinho mais fundo – cava aí, vai, pergunte uns porquês a mais – a gente acaba entrando não no conteúdo, mas na forma. Por que você gosta assim e assado, e não assim e frito?
Frita está a minha mente! Se nós começássemos a perguntar a meio mundo de gente por que gosta disso assim e assado, vamos começar a entender como a mente humana funciona. Os mecanismos por trás dos conteúdos mentais: como a mente é programada para ser.
Encontramos aí a psicologia. Mas isso é só um exemplo. Um entre um milhão. Toda ciência, no fundo, não é um conteúdo. É uma metodologia. Quase que um jogo. O campo no qual podemos jogar alguns conteúdos para saber se eles são quantificáveis ou não.
Em última instância, a ciência não encontra a verdade. Ela encontra a repetição. E, céus, como a mente humana gosta de uma repetição! É que é confy. Aconchegante poder se basear em pressupostos.
Se a ciência tenta trazer conforto, algum nível de acalento reproduzível nas condições ideais de temperatura e pressão, contraditoriamente, o seu caminho na verdade é árduo.
Acho que é por isso que eu gosto de gente tipo Huxley e Salomão. Essa galera, cada um a seu tempo, se danou a sair da zona de conforto. Testar os limites do entendimento.
– O que é a vida? Por que estamos aqui?
Toda metodologia acaba na metafísica. Porquês demais acabam em loopings eternos.
Salomão foi paradoxal. O cara era um cracudo. Ainda bem que não havia a Bet 365 naquela época. Entre consciência e insensatez, a sua perseguição incansável era tentar alcançar a sabedoria. Não encontrando em nada palpável, fez o inesperado e foi a buscar se entregando à loucura do vinho.
Muitas voltas da Terra depois (ai, como tudo é efêmero como correr atrás do vento) Huxley tentou empreender métodos científicos para tentar abrir as portas da consciência para além das nossas percepções. Começou a estudar a mescalina.
– É sério, Huxley, isso é muito mais belo do que tudo que eu já vi antes. O que é isso tudo? Por que estamos aqui?
– Que bom que está sendo bonito. Isso é apenas a vida. Você é que está a percebendo com outros olhos agora. Eu preciso anotar para o registro, o que você está vendo.
– As cores... elas são vívidas. E as texturas, então! É como se houvesse um filtro novo nos meus olhos. Tudo é mais real nesse novo prisma. Uma nova estética.
– Isso realmente bate com os relatos anteriores. As suas pupilas estão dilatadas conforme esperávamos para este momento. Agora feche os olhos. Respire fundo. Me diga o que você vê.
– Aí eu sou transportado para outra dimensão. Cores e texturas não formam a vida, elas são a vida. Tudo ganha tons áureos, como um pôr ou um nascer do sol. Dourado. Por que tantas civilizações, às vezes sem nenhum contato uma com a outra, escolheram o ouro como símbolo de valor? Escadarias que sobem e descem aos céus. Sensação de uma majestade esplendorosa como a Potência Criadora.
Às vezes, para encontrar a sabedoria, é preciso uma dose de loucura. Para expandir a consciência, uma outra perspectiva. Para compreender os mistérios, é preciso de fé.

