Borboletas
a íntima história do Zé Vaqueiro
A nossa cultura aloca os sentimentos como se estivessem no coração. Normal, né? Entranhas. Mas olhe algumas culturas mais originárias ao redor do globo. É comum associar os sentimentos ao estômago. Sentimentos viscerais.
Sem pensar em nada disso, Zé Vaqueiro estava em posição fetal na banheira. Água quente em uma noite morna. Havia apenas três dias que não sentia dores no esôfago. Ele abraçava as próprias pernas como se formasse um casulo.
Três gloriosos dias. Ele não se sentia pleno. Ainda seguia uma dieta bem restritiva, muito embora estivesse fazendo já a reintrodução alimentar. Ele estava feliz. Há alguns dias sem azia nem refluxo. Ele apenas sentia o estômago.
– Você não me entendeu até agora? – perguntou o estômago.
– Na realidade, não. Como eu posso te ouvir? – ele perguntou, já sentindo aquela nova sensação. O estômago meio constrito. Não sabia se viria queimação ou se era apenas o começo de uma nova fome.
– Claro que você não me ouve. Você nunca me deixa falar. Sempre apenas quer jogar comida e mais comida para dentro, nada mais. Não se dá tempo para você de fato sentir a fome. Já come.
De olhos fechados e ainda se abraçando, Zé Vaqueiro ria de si mesmo. Conversava bem com Deus. Tinha bons diálogos com sua consciência. Já até conversou com as pernas uma vez que teve que fazer um alongamento mais puxado. Mas conversar com um órgão interno era a primeira vez.
– Pense na borboleta. – Propôs o estômago. – Toda borboleta é borboleta de primeira viagem. Elas nunca foram borboletas antes, elas sempre foram só lagartas. Mandruvá. E lagarta só conversa com lagarta. Sequer sabe quem um dia vai ser borboleta.
– Valha, pode ser... Eu sempre tinha imaginado que a lagarta sempre soubesse que iria virar borboleta. Mas não necessariamente. Quem teria contado para ela antes da metamorfose que viria?
– Ninguém. O processo é simples. Um dia a natureza faz um chamado. Literalmente. É quando você vê aquelas lagartinhas agoniadas, tentando subir tudo a qualquer custo. Árvores, parede, meio-fio. Imagino que é uma agonia sem fim, hormonalmente orquestrada. Como você no seu desespero quando a natureza te chama: quero cagaaaaaar! As pobres, imagino elas tudo se arrastando na maior angústia existencial, sem saber onde aquilo vai dar.
Zé Vaqueiro riu de seu estômago.
– Quando finalmente a lagarta termina de subir, começa a soltar pela boca uma espécie de seda. Vai se vomitando e se cobrindo inteira para fazer o seu casulo. Pupa ou crisália, para ser mais específico.
– Eca.
– Imagino que nessa hora, elas dormem. As pobres. Espero que não tenham consciência nesse momento, tipo um neném que não tem memória na barriga da mãe. É tipo uma segunda gestação a metamorfose. A lagarta não faz nada para virar borboleta. Deixa a natureza agir, que nem a mãe não faz nada ativamente para o neném se formar. As coisas só acontecem lá dentro, no mistério. No âmago da misericórdia.
–Mas e aí?
– Ora, aí vem a borboleta! Já viu alguma rompendo o casulo? Elas nunca tiveram perninhas longas daquele jeito. Nunca tiveram asas. Saem trôpegas lá de dentro, tendo que se readaptar para sua nova biodinâmica. Até que voam. Porque confiaram no processo. Por mais dolorido que fosse.
– Tá, estômago. Mas por que você está me falando isso?
– Você não me entendeu até agora? Zé, e sou o estômago e você vem falando comigo nos últimos dias para eu não ficar com medo, para eu comer. Parece mesmo que está funcionando. Mas, cara, eu sou quem eu sou. O órgão dos sentimentos. Borboletas no estômago, lembra? Do que você está com medo?
– Eu Tenho medo de alguém me machucar. Eu tenho medo de me entregar. Eu tô com medo de me apaixonar.


Por favor, diz pro estômago do Zé Vaqueiro que o verdadeiro amor lança fora todo o medo. Se isso não se fizer verdade, as borboletas não nascem pra encantar a vida. Por favor, por favor, por favor...