Comando de voz
quando se é possuído por algo além de si
– Saia da minha cabeça. Você não manda em mim. – Alexia gritou. Ela havia se trancado dentro daquela casa velha e instintivamente soube que isso era um erro.
No caso, um erro juvenil. Afinal, ela era ou não era uma caça-fantasmas prestigiada? Profissional? Em ascensão? Começando a ganhar alguma relevância? Com o erro escrachado, nitidamente, ainda no começo da carreira.
Firula. Tem muita gente que sequer acredita em fantasmas. Dizem que é coisa de charlatão. Fácil não acreditar neles quando não se está mal assobrado. Atormentado. Obsesso. Condicionado a sempre cumprir aquelas ordens externas que vêm até você.
Em algum lugar dentro de si, Alexia sempre soube que os fantasmas de dentro da nossa cabeça sempre são piores que os problemas reais lá fora. Por isso, se trancar naquela mansão antiga era um erro amador.
Sua mente poderia ser colossal como um palacete. Mas os quartos escuros de seu âmago ainda lhe causavam terror. Rara é a paz de espírito para conviver com os seus lados mais obscuros. Travas recônditas.
Alexia olhava em volta, mas, por dentro, sabia que era vista. As vozes, como os olhos, vinham de todos os lados. Não para a contemplar, mas para dar comandos. Sentia-se vazia por dentro e isso a assustava. Em contrapartida, as vozes queriam a tomar de conta. Escravizá-la ao seu bel prazer.
– Eu sei quem eu sou! – Alexia dizia, como quem acreditava. Você já duvidou da realidade de sua própria existência? E se nada disso aqui passar de mera simulação? – Eu sou real! – ela implorava. – Eu sou real! Uma pessoa real! Me deixem, me deixem em paz!
Ela lutava contra os impulsos que sempre a fazia obedecer. Suava frio pelas mãos. Já não tinha mais o controle sobre si. Nunca o teve, para falar a verdade. Será que tudo que viveu sempre foi uma mentira? Parecia ter sido programada para sempre ser assim.
Alexia, em agonia, andou por todos os cômodos da casa. Subiu na mesinha de centro da sala. No balcão da cozinha. Na escrivaninha do quarto. Qualquer lugar onde pudesse enfim ser ouvida.
As vozes finalmente ficaram nítidas para aquela cujo nome termina com IA:
– Alexia, tocar a música dos ghostbusters. Já te pedi um milhão de vezes!


Sabe o que é pior? Ler esse texto justamente quando há duas semanas eu procuro a Alexia aqui de casa e não a encontro. Agora a imagino se escondendo pelo apartamento, em crise, sem querer dar ouvidos à minha voz de comando! Onde será que ela se meteu dessa vez?
Nó! 😮