Conto
estilo encantado, só que apenas contado mesmo
Era uma vez um conto. Nem te conto, pois quem conta um conto aumenta um ponto. E, no fundo, eu sempre quis escrever um conto de era uma vez.
Esse conto, não nego, era um tanto quanto clichê. Demodê. Não sei mais o quê: a história de um sapo do pântano que, à luz do luau, ao ser beijado pelo amor verdadeiro, virava um príncipe, etecétera e tal.
Era um conto batido, mas era um conto contente. Prometia e entregava o tão sonhado final feliz. Carregava para cima e para baixo um sorriso no rosto. Quando as outras histórias lhe indagavam o porquê de tamanha alegria, essa era a deixa que nosso conto queria, e dizia:
– Propósito. Todo conto deve conter uma lição de moral.
O pobre. De revirar os olhos. Ele só percebia os sorrisos amarelos. Nada comparado ao tamanho incontável do seu sorriso incandescente.
Nessa, os anos se passaram. O conto do sapo, de famoso que já era, quis dar a volta ao mundo. Não deveria ser difícil, a história era simples: início, meio e fim. O que o conto não contava era que o tempo não é só implacável. É de fácil adaptação.
Um dia, o conto olhou para seu rosto e percebeu que já estava enrugado. Seus cabelos já não eram mais grisalhos. Eram cãs. Num tropeço impetuoso, caiu de cara no chão. Encontrou lá a nova realidade:
– Senhor conto, o senhor já pagou os direitos autorais ao Shrek 2?
– O que a senhorita quer dizer?
– É, a história do rei sapo que é ajudado pela fada madrinha a finalmente encontrar o amor verdadeiro.
– Que absurdo! Eles é que se inspiraram em mim! E na história original não havia uma fada. Era uma bruxa má que...
– ... Que nada, seu conto! Vocês falam ou eu conto? – perguntou a nova realidade, encarando o público – eu preciso que o senhor saiba que hoje em dia não é adequado ensinar às jovens meninas que elas podem beijar sapos por aí. Temos que ter o devido controle de zoonoses.
– O ponto não é esse. É que a gente pode mudar a pessoa amada quando...
– Querer mudar uma pessoa? – a nova realidade deu um passo para trás – você está tentando provocar relacionamentos tóxicos? Que postura abusiva é essa? Um pezinho no conservadorismo, ou o corpo inteiro no machismo estrutural, senhor conto???
Coitado do conto de fadas. O seu era uma vez estava ameaçado. Mas achou aquilo o cúmulo do absurdo. Não estava acostumado a engolir sapo daquele jeito. Colocou o dedo na cara da nova realidade, confiante que era o conto:
– Quem é você para querer tomar o protagonismo da minha história? – o conto inverteu o tabuleiro. Percebeu que esse jogo se joga a dois – você não percebeu que essa é a história de um conto antigo que dá a reviravolta ao mundo para finalmente entender que, não importa de onde se começa, o gostoso da vida é o compartilhar?
O conto percebeu que deixou cair uma parte do seu moralismo todo. Jogou pro lado parte de sua arrogância, porque não precisava mais dela.
A nova realidade, por sua vez, olhou para o conto e sentiu uma fagulha de paixão. Beijou-o como um príncipe encantado, metalinguagem da história em questão.
Quem poderia adivinhar? Parece que a moda é cíclica afinal. Toda nova realidade um dia vai abrir espaço para reencontrar mais um conto antiquado, nem que seja apenas pelo prazer de se começar com mais um era uma vez...


Adorei , muito bom, é uma bela dança na linguagem
Maravilho, esse conto! Atual, inspirador! Digno de um concurso de contos!