Deriva
texto traduzido de um autor desconhecido
O texto, em si, era um mistério. Escrito em uma língua quase morta. Era uma ilha isolada no contexto da Eurásia. Mas a notícia do escrito se espalhou para muito além, adentrando no continente: ao que tudo indica a história era estonteante.
Afinal, havia um fascínio particular. A história mais bela de uma língua que se perde. Quais eram os léxicos tão complexos que aquele idioma deixou para trás? Um linguista renomado quis colocar uma pedra naquela história toda:
– Intranscritível; – era o seu veredicto – existe no idioma fonte uma gama de expressões idiomáticas típicas daquele povo pesqueiro. Apenas para se ter uma ideia, os nomes dos sentimentos, para eles, não são substantivos abstratos. Eram palavras cuja grafia se traduzia na distância da pessoa a quem se referendava. Tudo sempre correlacionado a objetos do mar.
Não é preciso dizer que, ao invés de acabar com o debate, o linguista fez a pedra girar. Especulações para todos os lados. A história, pelo que parece, conta a jornada de uma jovem cujas marés cresciam quando um rapaz chegava perto. Eu sei disso porque sou estudante de letras e, bem, o meu avô nasceu e cresceu naquela ilha antes de seu grande naufrágio que o levou à Espanha.
Meus olhos percorrem aquela forma tradicional de escrita. De fato, não há paralelos absolutos. As letras costuradas formam um manto que cobriram o meu berço quando eu era pequeno. Letras tecidas em laços que formam teias de uma rede. Rede essa que é lançada para pegar peixes.
A protagonista tinha areias reviradas quando o rapaz construiu sua primeira jangada. Frágil e de madeira fraca. Ele adentrava o mar de ressaca, mas as ondas eram de lua cheia. Invadiam toda a faixa de areia até não sobrar nada. Não vá ao mar, ela dizia, já que, revirado, não vai ter o que pescar.
O irmão do rapaz, por sua vez, juntava conchas dentro de si. Coletava-as por causa dela. Como mais haveria de enfrentar a fúria dessas marés? A água batia nas pedras: bate, bate e bate. Água salgada entre os dois enquanto o pescador está longe. Água que bate na pedra ou a pedra que bate na água? Não importa, a rígida pedra ficou molhada.
Toco no texto com intimidade. Como traduzir com fidelidade? Pode um bom tradutor explicar o que não havia ali? Acrescento um personagem: a ilha era a história desolada de um homem que se perdeu. O mar impiedoso não tolera jangada quebradiça. Ainda mais se foi construída com buracos em casa.
O pescador ficou à deriva. Sofreu insolação. Angustiou-se em desolação.
Derivando, seu corpo encontrou um chão. Seus pulmões estavam cheios feito bexiga natatória. Pena que peixe ele não era. Humano sendo, encontrou outros lábios que tocaram sua boca. Que lhe inflaram o ar. Era uma salva-vidas espanhola, a partir de onde a história da minha vida está derivando desde então.


cara parabéns,que texto gostoso de ler 👏🏼
<3