Descartes
a derradeira carta de adeus.
Cara amiga, por favor, rasgues as cartas que eu te mandei. Eu sei, o ano apenas começou. Vejas, o sol está raiando agora! Poderíamos ter um novo despertar. Mas eu preciso que rasgues tudo o que eu te encaminhei. Apenas jogar fora não será suficiente.
Percebes a ironia da situação? Insisto no meu erro, escrevo-te de novo. Deponho contra mim mesmo. Produzo provas que me condenam, alto grau de culpabilidade. Um erro resolve outro erro? Assim, desesperado, faço o que faço de mais frequente. Recorro a ti. Desta vez para te pedir: queimes cada uma das palavras que eu já te escrevi.
Não deixes vestígios, é isso que eu te rogo. Rasgues porque papel tem memória, e eu já não confio na minha. Lembras-te dos nossos encontros nada casuais? Dos segredos que trocamos em miúdos? De cada palavra que eu te confessei como se fosse um código? Na verdade, era. Tu o sabes muito bem.
Tu que sempre jogastes com os meus sentimentos. Com as tuas meias verdades, nuas como carne fresca exposta em açougue. Nuances que eu gostaria de destilar melhor. Não posso confiar nas tuas palavras ditas, mas eu fecho os meus olhos e ainda consigo te ver. O teu rosto é um mapa. A tua silhueta esconde o tesouro que eles querem encontrar.
Desfaças-te de tudo, pois estais em perigo. Na outra noite, o nosso plano ainda não estava maduro; eles bateram na minha porta. Gritaram por teu nome. Eu fiz tudo errado, eu atendi. Recebi toda a truculência ianque, meu amor. Soco na cara: cás estou, refugiado. Não resisto a mim mesmo, escrevo-te: descartes todos os arquivos.
Nós temos o que eles querem. O teu jogo sempre foi espionagem ou foi intuição? Que poderíamos ser um novo horizonte a alcançar? Apagues qualquer prova. Que poderíamos ter sido juntos, mas que agora o sangue escorre. Mais uma vez nas veias abertas da América Latina.

