Disrupção
um exemplo real de literatura disruptiva pautada na associação livre
O rapaz dá um trago em seu cigarro, estamos na varanda da minha casa, sentados nas cadeiras de plástico que peguei emprestadas da igreja. Ele passou por muita coisa, está acuado. Seu olhar está distante. A lua minguante dá um ar de meia-luz. Nele, há uma nítida desesperança. Apesar dos pesares, a cena é bonita de se ver.
Ele é firme nos gestos, enquanto movimenta o fumo com graciosidade. Bafora a fumaça para cima quando, com indiferença, se esforça para entrar no meu mundo:
– O que é isso de literatura disruptiva pautada na associação livre?
– Vem comigo que eu te mostro. – Provoco, estendendo a minha mão. Ele a segura. Nos levantamos das cadeiras e saímos correndo. Lá ainda é a minha varanda, mas já não estava mais sendo. Em poucos pixels, se altera. A nossa realidade está erodindo rapidamente. Disruptura deste universo.
Corremos rápido ao ponto de saltarmos juntos a fenda cósmica. Estamos no casamento da família real. Qual família real? Eu não sei. Realeza parece uma pessoa tão real, que nos esquecemos que é um conceito abstrato. Na realidade quem se ferra é o lascado que nos bolsos não tem nenhum real.
É uma cerimônia absolutamente formal. Lordes e damas para todos os lados dançam uma valsa pomposa. O meu penteado está pronto. Será que ele vai me chamar para dançar?
– Eu nunca te vi tão bonita na vida. Me deu uma vontade muito louca, dentre todas as senhoritas, é com você que eu quero dançar. Antes estávamos no seu quintal, mas como viemos parar aqui?
– Você não viu nada. – Eu falo tocando o meu dedo indicador no meio da testa dele. Ele cai para trás e com ele o mundo chacoalha juntos. De repente, estamos na floresta amazônica, mas os pensamentos intrusivos vieram conosco, correndo atrás de nós. Fugimos. Galhadas batendo em nossa cara, procuro outro portal.
Eu o abraço, estamos já na geleira do Ártico. As fendas das rupturas de realidades estão mais insanas. Cada vez mais rápidas, grande corredor. O meu penteado foi pro espaço! Nesta geleira, não sinto frio. Seria o aquecimento global ou por que estamos em 1960 na inauguração de Brasília?
O momento que estava aqui já era. Piscamos os olhos, estamos na grande muralha da China, mas somente naquela parte que ainda não conhecíamos. Na pontinha descoberta do deserto do Saara, ou em um submarino no fundo do oceano: o fluxo livre de pensamentos aleatórios desta mente acelerada.
Subimos vertiginosamente a intensidade, malas pesadas para escalar os Andes. Segure-se firme para não cairmos. O rapaz vai precisar soltar todo o peso de tudo aquilo que ele acreditou que um dia sabia: a disrupção chegou em um novo nível metalinguístico. Será que ele não entendeu que ele é você que está lendo aí?
Agora eu entendo tudo! Eu que leio, no processo da leitura, percebo que eu sou ele, o rapaz apaixonado e desiludido da história. Ou melhor, eu sou a versão dele que você, moça, produziu em mim.
– É o que? – Pisco os olhos com força. Quem sou eu afinal? O fumante, a mulher, o leitor ou o fumo? Quais as regras ele esconde no fundo? Pisco os olhos, tento enxergar onde estou: imaterial. Cores peroladas. Estou vagando, consciência única, no todo. Estou no plano astral.
O que estou vendo? É belo de verdade, é o paraíso, afinal. Aqui está para além de onde o tempo conduz a sua dança. As dobras das dimensões do espaço nunca foram propriamente a nossa prisão. A terra que nos sustenta em nossas formas, a odiamos, porque nos impede de voar. Que pratiquemos esportes do vento então!
Voo para mais alto e vejo. Deus é um pai amoroso. Aos seus filhos e às suas filhas, deseja o bem. Não importa onde estejamos, se não fôssemos tão obcecados a olhar e não enxergar para fora, poderíamos ter visto mais cedo. Ter o contemplado no meu próximo, ao invés de morrer sem vê-lo em ninguém.



