Distopia
a história de áudio não respondido
– As borboletas acabaram – você me disse em tom seco. Por mensagens de voz. Enquanto eu estava naquela praça onde costumávamos caminhar.
Fazia tempo que eu não via o seu rosto. Ver a sua foto, mesmo que apenas pelo aplicativo de mensagens, me fez reviver vários momentos. Um retorno à nossa primavera.
Eu precisava ser sincero. Depois dos últimos acontecimentos, eu sequer saberia dizer sobre o que era o seu áudio. É loucura pensar que, algumas estações atrás, estávamos vivendo uma vida comum. Compartilhada juntos.
Acho que tudo começou com a sua pesquisa. Você sempre foi muito inteligente, sabia? Naquele laboratório, você foi a primeira a descobrir que algo não estava bem.
Nós dois, pesquisadores. Você, com o foco sempre atento na insetologia. Abelhas, besouros, borboletas. Eu, cabeça nas nuvens, estudos climáticos. Mas foi você que percebeu antes quando os ares mudaram. Algo não estava bem.
Começo de romance é tão gostoso. Não nos desgrudávamos por nada, senão em prol do avanço da ciência. Até que você, apenas controles de pesticidas; eu, mudanças abruptas de temperatura.
Quem diria que tudo estaria conectado? Que era o prelúdio do fim?
“Até bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão no Texas”, era o cliché do filme que víamos juntos depois de nossas longas andanças.
Lá pelas tantas, não caminhávamos tanto. Longa-metragem repetido, jamais.
Você, descobertas revolucionárias, uma mensagem de urgência, risco iminente de extinções em massa. Simpósios, entrevistas, viagens internacionais. Eu, a busca incessante pelo epicentro, pelo olho do furacão, pela razão final.
Quem diria que a resposta era evidente? Agora, já era tarde. Quando eu percebi que a minha teoria climatológica era o cerne da sua pesquisa, já era. Recebi apenas um áudio seco:
– As borboletas acabaram.
Era o fim do nosso amor.
Era o fim do nosso mundo.


Insistente, procuro acreditar que a causa de tudo é o inverno.
Tivesse respondido antes à mensagem, mas não pude. Faz frio.
Ectotérmico assim como elas, algo em mim faz de você o meu calor necessário. É muito difícil sozinho nesses dias cinzas.
Será esse o sentimento que nos aquece o peito? Esse que nos permite voar em temperaturas abaixo de 12c?
Me recuso acreditar que as borboletas acabaram. Aguardo ainda mais um áudio. Aguardo a volta da primavera.