Essência
e o retrato que eu nunca pude revelar
Era natal: com todas as suas luzes, com todos os seus encantos. Era minha primeira infância: com toda a minha família reunida, com toda a mágica que se releva à época. Por um instante, a gente pensa, a vida é boa e nós podemos ser felizes.
Dos fatos, não me lembro muito. A mente da criança é plástica e logo, logo há uma cesta de lixo reciclável. Lembro apenas que eu amava uma foto de quando o meu avô Walter era forte. Ele segurava a mim e ao meu irmão no colo. Era dezembro e ele segurava a nós dois no colo em frente a uma árvore de natal.
Eu amava aquela foto tanto que:
Coloquei com imã num quadro metálico do meu quarto;
A utilizava em tarefas da escola para representar a família;
Às vezes a carregava para cima e para baixo;
Enfim, a perdi.
Acho que é por isso que não julgo as gerações mais novas. Essa mania biomecânica de não largar a mão do celular. Às vezes, estão apenas querendo registrar o momento. Como se quisessem, a todo vigor, não deixar de habitar o incandescente tempo presente. O único tempo em que se pode de fato estar feliz.
Mas como se contentar com o presente se, efêmero como o vapor, ele logo passa?
O meu pai era fotógrafo profissional. Ele me ensinou a registrar a luz nas ocasiões importantes. Nesta altura do campeonato, vocês já devem ter entendido, a fotografia nada mais é do que a manutenção do presente (um viva à centelha da eternidade).
O meu avô foi sindicalista bravo. Ele me ensinou a brigar pelo que se acha certo. Indignou-se contra o presente de seu tempo ao ponto de ter sido preso pela ditadura contra a qual costumava militar. Ele também era um homem de visão (até porque o retrato requer luz).
Eu não conheci de fato o meu avô paterno em profundidade, senão quando eu era criança. Criança o suficiente para ele conseguir carregar a mim e ao meu irmão no colo em épocas natalinas.
Quando eu já era um pouco maior, o conheci em sua doença. Em suas caminhadas matinais mesmo quando lhe afligiu a cegueira. Aquele homem forte de outrora, eu o acompanhei definhar. Um dia, em seus dias terminais, eu vi a sua nudez. Eu quis ver a sua nudez, curiosidade de menino. Acabei que encarei a minha mesmo. Naquele dia eu não soube, mas percebi. A gente é feito para acabar.
O que restou da memória, quando a fotografia se foi? Por que na casa do fotógrafo profissional não haveria o rolo do filme original para revelar novamente? Será que essa foto sequer existiu, ou a mente plástica de uma criança forjou a sua existência para em seguida lançá-la fora? O que essa história releva sobre mim?
Meu avô, do movimento sindical. Meu pai, o missionário das câmeras analógicas. Eu, poeta ou cronista?
Por amor ou clamor, o poeta firula a realidade a seu bel prazer para alcançar a métrica perfeita. O cronista, por sua vez, a fantasia apenas para caber na sua própria paródia do mundo. Portanto, esta é a diferença abissal: o poeta mente mesmo quando fala a verdade; o cronista fala a verdade mesmo enquanto está mentindo.
Falseada a memória ou não, daquele natal com o meu avô, me restou a memória de sua imagem. O que ele me ensinou, o que ele me deixou, a sua anistia política. A sua verdade fundamental, que eu não soube entender quando eu era piá: quando não subsistem mais ideologias, no fundo, nós também somos amor.

