Fuligem
o milagre da novidade ou o mistério da colagem literária
Bibliotecário que sou, vivo a procura de referências. Dou exemplos. A história, para citar um, acontece a primeira vez como tragédia para então se repetir como farsa – já prenunciava o materialista. Se todos nós estamos conectados a ciclos tão determinados, é possível inventar algo novo de verdade, além daquilo que já temos referenciado?
Todos nascemos pelados e morremos estupidamente sós. Que não se enganem as vítimas de tragédias coletivas, cada morte se morre sozinha, que se danem os outros. Nesse meio tempo entre nascer e morrer, somos condicionados.
A condição básica é a respiração. Ciclos de inspirar e expirar. Quantas vezes por dia? Ciclos de dormir e acordar. De comer e de defecar. Juntemos todos então! Todas as culturas mais bizarras e excêntricas. Não somos assim tão diferentes afinal, às vezes o esquisito é você.
Nascemos e morremos, mas nesse meio período, buscamos condições de viver. Nesse caso, eu me valho (valha-me Deus!) da sabedoria salomônica. Há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de plantar, tempo de colher; tempo de amar, tempo de odiar; tempo de empilhar pedras, tempo de derribar pedras.
Tempo de acontecer como tragédia e tempo de se repetir como farsa?
Hoje é domingo e eu acompanhei o noticiário. Incêndio em BH. Não em qualquer lugar, logo onde eu trabalho. Não é em Alexandria (aquilo sim foi tragédia de verdade!), mas pegou fogo na nossa biblioteca comunitária. Nos juntamos ao MST, quem era da Casa do Saber. Não sei se saio correndo ou se choro: eu era apaixonado por aquele acervo.
Na dúvida, faço os dois. Enquanto choro, pego o carro para me dirigir a lá. Queira Deus tenha sobrado alguma coisa! No caso, só fuligem, o que é excepcional. Vejo páginas e mais páginas voando em retirada. Retrincando e retorcendo segundo condiciona a fome do fogo. Não há mais versos, as palavras se desprendem então.
Fico de cara, me aproximo. Cada letra, agora alada, toma a sua proporção. No caso, seria a literatura a nossa tentativa de inovar; ou seria a farsa de uma tragédia que anuncia a si mesma? As letras se desagarram e se reagrupam, voluntariosas. Eu não tenho referencial teórico para explicar esse fenômeno obstinado.
Do trágico ao cômico. Eu já te contei, né? Sou bibliotecário, vivo atrás de referências. Nada poderia explicar isto: este texto. Foi inteiramente escrito tão-somente pelos detritos do incêndio, letrinha por letrinha. Colcha de retalho, trapo de remendo, colagem literária com vontade. Irônico como as queimadas do cerrado: o fogo que consome às vezes é o que faz germinar, seja na tragédia, sejam nos ciclos que se repetem.


Eu sinto muito.
O ser humano, como demonstrou, é um animal tedioso. E o tédio tem a virtude da recorrência. A biblioteca será reconstruída. Não será a mesma, mas será outra.