Lista de compras
mas havia uma flor no meio do caminho
Não me espere, meu amor, porque eu ando distraído pelo caminho.
Me pediram para comprar um detergente e uma bucha. Mas é que havia, no trajeto, uma flor.
Havia um senhor reclinado no umbral de uma janela. Sua voz era para dentro: ele falava em português, mas não lhe entendia nenhuma palavra.
Havia cores. Fascinei-me com as cores nas prateleiras do mercado. Anilina de toda diversidade para fazer bolos de aniversário.
Disse que sairia de casa, que voltaria ao meu saudoso Ceará pouco após o ano novo.
Quando me dei por mim, dias se tornaram semanas, que se tornaram meses.
Dei-me conta que me locomovo fácil através da inércia. Não apenas fico parado. Quando estou em movimento, continuo a transitar.
Deparei-me com a cidade dos Pirineus: um lugar que me subtrai qualquer noção de obviedade. Onde a beleza emana em flor entre as pedras de quartzo.
No trajeto do mercado, para comprar detergente e esponja, havia uma flor de uma pequena plantinha desabrochada para o amor.
E lembrei que o amor é raro. Do tipo de raridade que se encontra apenas na viração, em um belo pôr do sol.
Por isso que eu te digo, meu bem, não me espere. Que estou a caminho, mas que caminho no meu tempo.
Não me espere. Mas me dê a mão. Porque me encontro a cada esquina. Em cada nuance. E, assim, espero te encontrar.

