Monolítico
a procura de sentido em meio ao surto psicótico
Ansiedade.
Você já sentiu que a vida é assim? Que a vida é como um jogo de tetris? Cheio de coisas para resolver e as pecinhas continuam a cair. Independente do formato que você precise, elas só caem.
Um nó no meu pescoço.
Não se assuste com os meus movimentos abruptos. Neste momento, estou tendo uma crise de pânico. Não é a primeira vez. Já vejo os médicos vindo em minha direção, eu sei que eles querem me sedar.
Por favor, não! Os sedativos de novo, não!
Eu já não controlo direito os meus movimentos, mas me esforço. Luto conforme consigo para guiar os meus passos em fuga. Aonde foi parar a luta antimanicomial quando mais precisamos dela?
Eu preciso sair daqui!
Mas, conforme vou correndo, estabanado, atravesso espaços. Espaços vazios, salas, auditórios. Que instalação imensa e bela! Atravesso cômodos com pouca iluminação, campos de luz, ondas eletromagnéticas: cores.
Às vezes a forma importa mais do que o conteúdo.
Já não me pego mais preocupado com os médicos atrás de mim: isso já aconteceu há muitos anos atrás. Vi médicos e enfermeiros em seus jalecos coloridos, eles correriam até mim. A perseguição que seria no futuro agora já passou lá atrás. Quantos repartimentos atrás?
Presente, passado e futuro são apenas formas como compartimentamos o tempo.
A certa altura do campeonato, o meu surto me permite enxergar. Atemporal. Eu vario de um ponto a outro; do outro a um. Início, meio e fim: tudo é uma coisa só no eterno ciclo da fagocitose e exocitose celular. A minha consciência se expande.
Explosão de ideias, bigue-bangue.
Cores, luzes e vibrações. Tudo isso, uma expansão da matéria no campo ondulatório. Eu respiro fundo. Nada faz sentido, mas, em algum nível, eu estou conectado. Ursos sempre sabem a estação certa de hibernar. Tartarugas voltam à mesma praia onde nasceram para pôr seus ovos.
Quem dirá eu neste hospital?
Se tudo sai do mesmo ponto e volta ao mesmo lugar, acho que pode haver esperança. De fato, me sinto relaxando um pouco, muito embora ainda esteja vivenciando muitas outras dimensões que a sua mente sequer pode conceber neste momento.
Pode ser que os sedativos estejam fazendo efeito.
Já consigo respirar mais aliviado, mas permaneço a ver em cores. Quadradinhos segmentados que caem e continuam a cair contra a nossa vontade — você já sentiu que a vida é assim? Um tetris monolítico que temos que dar conta?
Deve haver um sentido para além deste jogo chamado vida.


Reflexivo e sincero! Gostei da forma como descreve o psicológico.