Presságio
Uma distopia não tão longe assim
Mais uma noite trabalhando até tarde no laboratório, já não consigo mais disfarçar as olheiras. Decodifico uma mensagem enigmática em código morse ao mensurar níveis quânticos de radiação gama.
“E se eu te contar que os efeitos do aquecimento global vão começar mais rápido e serão mais catastróficos do que todos imaginavam?” – iniciava o manifesto de um grupo contrarrevolucionário, autointitulado de dissidentes.
Leio e releio várias vezes. O ano é 2025, mas a mensagem é datada de 2200. Começo a fazer os cálculos e, puta merda, todos os números batem. Decifro novamente os códigos lançados pela radiação – ela não era para ter essa propriedade, desafiando até mesmo os preceitos da relatividade.
Em menos de cinco anos, as mudanças climáticas são exponenciais. Desertificação da Amazônia. Inundações no Saara. Chuva ácida em todos os grandes centros urbanos. Incrédula, refaço os cálculos de novo. Apesar de efeitos aparentemente aleatórios, tudo se encaixa perfeitamente.
Eles me contam que em 2030 as commodities mais rentáveis são as “terras verdes” – aquelas enfim disponíveis para o plantio. Fomes e doenças fazem o trigo valer mais do que alguns gramas de ouro. “De que vale ganhar o mundo e perder a alma?”
A população humana diminui drasticamente. O planeta tentando se regenerar, expurgando aqueles que lhe fizeram tão mal. Inúmeras espécies animais e vegetais já foram extintas até a Grande Revolução.
Decodifico de novo, os efeitos revolucionários parecem mais intensos que a Revolução Agrícola – quando, no Neolítico, as sociedades nômades se fizeram sedentárias pela primeira vez. Um novo tipo humano se faz presente.
Nasce um novo medicamento. Tudo muda radicalmente. Totalmente sintético, a humanidade parou de depender da mãe natureza para saciar uma de suas necessidades mais básicas. A pílula da hipernutrição é o novo caminho: uma por mês e não será necessário se alimentar organicamente.
Aos poucos, novas gerações vêm e vão sem nunca terem experimentado nenhuma comida sequer. Coço os meus olhos, o dia já está raiando. Não consigo parar. Releio a mensagem. A emissária se chama Rose, terceira líder dos dissidentes.
Todos os demais foram sentenciado à morte. Cometeram um pecado capital. Não mais a gula; o mero comer. Dissidentes de todas nações ao redor do mundo tentam parar o coração pulsante da nova ordem mundial que tomou conta: o farmacológico.
“Sem pílulas, sem vida” braveavam os governos. Novas geração não sentem mais odores como antes. Nuances de cheiros que se perdem pelo desuso do paladar. Os contrarrevolucionários, por sua vez? Levantam a bandeira dos pães asmos em protesto contra a hipocrisia dos políticos, bancada a banquetes.
“É uma pena que a manipulação quântica do raios gama só se iniciaram em 2025. Você é o limite máximo no passado que podemos nos comunicar no tempo. Já é tarde. Você não conseguirá mudar as ondas de calor. Mas nossas pesquisas apontam que você é aquela que pode dar comida aos que também já não sentem fome” – terminava o manifesto.
Eu, incrédula. Quantas vezes refletimos que nossas ações podem reverberar ao menos 175 anos pela frente? Choro porque vejo a história se escrevendo. O anseio humano de se comunicar com o passado, ao menos dois séculos antes. Nas minhas mãos, o poder de curar gerações... ou o planeta.
A síntese de contrarrevolução são aqueles que estão no Poder. Eu não posso ter filhos mesmo. Carpe diem. Eu só vivo o aqui e agora. Já são oito da manhã. Passo no RH e sinto um aperto no meu peito: requerimento encaminhado para o setor farmacêutico.

