Resistência polaca
à beira de sentimentos relativos
Tão rápido como veio, se foi. Às vezes, é assim o amor. Às vezes, é assim a felicidade.
Parece que fazia tão pouco tempo que havíamos estudado com o próprio Albert Einstein na Suíça. Foi em 1914, mas parece que foi ontem. Bem, acho que é preciso relembrar as aulas do professor: o tempo é relativo.
De fato, quando estou do seu lado, as horas voam. Como a paixão é boba! Nunca imaginei que este seria o nosso super poder. Atravessamos cada segundo como quem desafia a linearidade temporal.
O que poderia desafiar nós dois juntos?
Tempos sombrios. Vivemos (vivíamos?) num tempo que é difícil de entender. 1939. Não é seguro para dois poloneses como nós de volta em Varsóvia. Principalmente com a sua ascendência judia.
O rio Vístula atravessa a nossa capital. Corta mais profundo que uma carta de dois gumes. Um mero acordo de cavalheiros. Alemães ocuparam este lado do rio; os soviéticos, o lado daí. O povo sangra, os sistemas imperam.
Você fez bem em fugir para o outro lado. Tempo e espaço são capazes de modular os sentimentos humanos. Eu entendo o seu pensamento frio. É mais fácil suportar a chacina quando não são os nossos entes amados que estão sendo torturados diante de nós (todo mundo aqui tem um parente que não conseguiu fugir da guerra).
Foi por isso que eu cruzei para o outro lado da syrena. A nossa sereia ergue a espada como um símbolo nacional. A história da Polônia não é fácil, meu bem. Um povo sofrido, um povo guerreiro. Traído de todos os lados que pudesse contar.
Nos anos que se seguem (eu vou lendo, devorando tudo o que eu posso para te encontrar), os soviéticos nos ajudaram a expulsar os nazistas, porcos bastardos! Mas os camaradas ocuparam o lugar do capataz.
A resistência nunca é um ato simples.
Pisco os olhos e já é 2025. Reconstruíram a ponte para conectar os dois lados do rio Vístula (reconstruíram toda a cidade praticamente). As manchetes já falam até que ele está secando.
A culpa aparentemente é do aquecimento global. Quem alimentava o rio nesta época do ano era o derreter das geleiras. Com as temperaturas mais altas, não se forma mais tanta neve no inverno.
Finalmente eu te encontro. Você está tão jovem quanto mês passado. Está tão novo quanto em 1939. Te segui, já que você fugiu para o outro lado do tempo. Ainda bem que desvendamos o mistério do professor.
Uma pena que a nossa máquina do tempo aquece tanto assim. Não sei se vamos nos acostumar neste (novo?) tempo histórico. Apertemos juntos este botão! Tão rápido como vim, nos vamos. Às vezes, é assim o amor. Às vezes, é assim a felicidade.

