Tempestividade
e a crônica que o calendário repetiu mais uma vez
Era mais uma vez um ano. E, assim como tudo quanto é novo, trazia consigo as esperanças de um novo recomeço. O ano era 2026, e diz-se assim: novo recomeço mesmo. Com toda a ênfase que apenas um bom pleonasmo de quem sobe para cima ou desce para baixo pode de fato enfatizar.
Chegou bem. Bem recepcionado ao menos. O novíssimo ano chegou e já havia gente de branco em toda parte para o receber em paz. Calcinhas vermelhas e cuecas douradas. Tudo quanto são cores de roupas íntimas trazendo consigo a vasta gama de supersticiosidade com toda sorte de desejos vãos.
Assim chegou este aninho. Pequeno. Bebê. Com toda a inocência que poderia haver. Porque, em algum nível, é preciso delimitar o tempo. Genial foi quem criou, no âmbito da geopolítica, a noção temporal do novo ciclo. É um dia que sucede o outro, mas as sociedades acreditam que agora tudo vai mudar: o novo recomeço. Tão real quanto a sua dieta o será na segunda-feira, inocência sua.
Respeito os ciclos da natureza e as fases das luas que comportam treze meses. Para além disso, o que temos são os dias que se seguem. Desde a infância, até aqui, no inexorável trilho da caminhada. Um dia após outro, uma noite após outra: pense nos brinquedos que você deixou para trás no seu jardim de infância.
Cada um dos seus brinquedos ficou para trás, da mesma forma que você os deixou lá. Tudo quanto passa fica para trás. Fica igual e permanentemente para trás.
Mas o ano é novo como um bebê, ele só quer brincar nesta primeira madrugada onde os adultos vão brindar. O ano é 2026 e você pode revisitar o seu jardim. Há quanto tempo você não entrava lá? Sabe o que vai encontrar? Tudo o que você deixou para trás, cada coisa em seu devido lugar.
Olhando para trás, tudo permanece, mas nada fica igual. Abaixe-se. Pegue o seu brinquedo favorito. Ele pegou chuva e sol, sol e chuva, pleonástico como o casamento da viúva ou do rouxinol. Você se levanta para o observar: a parte de cima já está desbotado das intempéries.
Tudo fica. Tudo fica, mas nada permanece igual. Por isso, aproveite a toada. O ano é recém-chegado, pequeno como quem se pode levar ainda no colo. Entre para dentro desta experiência, porque o pleonasmo às vezes é necessário. Mais uma vez, mais um novo ciclo. Não só porque é o ano novo. Só porque é hoje. Talvez assim o 2026 envelheça melhor.


Senti uma pitadinha de Rebecca Sugar!